Entrevista Exclusiva com Sidão

“A cobrança vai aumentar pra cima da torcida também”

“Porque quando a gente for entrar no Morumbi e tiver 15 mil, 16 mil, a gente vai achar que o estádio está vazio”, disse Sidão em entrevista exclusiva

Por Giancarlo Bueno e Leonardo Pratt

 Sidão comemora vitória do São Paulo (Foto: Bandeirantes)


Sidão, goleiro de 34 anos, foi contratado no início do ano como indicação do então treinador Rogério Ceni. A expectativa por ele aumentou muito após sua participação na Florida Cup, em janeiro. Foram dois jogos e duas disputas de pênaltis, com destaque para o goleiro.

No começo da temporada, no Campeonato Paulista, ele começou como titular da equipe. Mas após uma queda de rendimento do time, e por consequência algumas falhas da defesa, Sidão perdeu a titularidade para Dênis e depois para Renan Ribeiro. Viu do banco as eliminações do time em três campeonatos (Paulista, Sul-americana e Copa do Brasil), e os maus resultados afundarem a equipe na zona de rebaixamento no Campeonato Brasileiro.

Dado tudo isso, o ídolo Ceni não conseguiu suportar a pressão da diretoria e acabou sendo demitido do cargo. Então chegou Dorival Junior e, principalmente, Marcos Guilherme e Hernanes, jogadores contratados pela diretoria para suprir as perdas de jogadores no início da temporada. Ao todo, o clube perdeu 39 jogadores do fim da temporada passada até setembro deste ano.

Após penar para encontrar uma formação ideal e 14 rodadas na zona de rebaixamento, o São Paulo confirmou sua permanência na Série A no empate sem gols com o Botafogo na 36ª rodada.

Em entrevista exclusiva, Sidão revelou bastidores do ano do tricolor, como foi a passagem de Rogério Ceni pelo clube, além do que espera do clube e também da torcida são paulina em 2018.

Rogério Ceni e Sidão durante a Florida Cup (Foto: Globo Esporte)

O São Paulo é um dos maiores clubes do país e é conhecido internacionalmente. Sobre isso, o que te motivou a vir para o São Paulo, além do Rogério Ceni ter pedido sua contratação e ter te bancado no começo do ano?

É, com certeza isso pesou muito na escolha entre São Paulo e Botafogo. Eu cresci em São Paulo e vi o São Paulo ganhando muitos títulos. Então era um sonho de infância vestir essa camisa e quando apareceu a oportunidade, ainda mais vinda pelo Rogério que é um grande ídolo do clube, eu não hesitei, né? Então eu vim de coração mesmo porque era a grande chance da minha vida.

Sobre o Rogério. O que aconteceu para ele não ter dado certo como treinador no clube que ele tanto ama? Você que é goleiro e tem uma outra visão do jogo.

Acho que ele tinha uma ótima estratégia de jogo e eu acho que estava funcionando no começo do campeonato. A gente tinha o melhor ataque do campeonato paulista, um dos melhores do Brasil, acho que éramos a equipe com mais gols feitos até então, mas se cobrava muito os gols sofridos. E esses gols sofridos na época, eu me lembro que era muito erro individual. Eram poucos os problemas táticos, que era o que ele estava implementando. Então o esquema que ele estava colocando estava funcionando. Mas essa questão de sofrer muitos gols, por ser início de temporada, acho que acabou afetando naquilo que ele acreditava para o time. E aí foi onde eu acho que ele começou a procurar soluções para isso, para os gols sofridos. E aí, no meu ponto de vista, eu acho que ele deixou de fazer o que vinha fazendo e foi onde ele perdeu um pouco do plano de jogo que tinha, que eu acho, na minha opinião, que estava funcionando. Independente dos gols sofridos, acho que estava funcionando.

Para vocês jogadores, qual foi a projeção estipulada no começo do ano e o que faltou para vocês alcançarem os objetivos traçados?

A projeção era títulos. Um por um: primeiro o Paulista. Nós tínhamos como competição a Copa do Brasil, Sul-Americana, e aí já começaria o Brasileiro. E teve um mês que nós saímos de todas as competições. Eram as finais do Paulista, ficamos fora. Era jogo decisivo da Copa do Brasil, nós saímos. E jogo decisivo da Sul-Americana e nós saímos também. Então acho que isso afetou muito o nosso grupo para o restante do ano. Isso gerou muita dúvida em questão do grupo, do time todo. Então acho que essas eliminações assim na sequência afetaram bastante.

Do começo do ano com o Rogério, idas e vindas de jogadores, até hoje com o Dorival e um time mais consolidado, mais sólido. O que mudou no São Paulo nesse período?

Isso aí pesou muito também para o Rogério. Nós fizemos uma pré-temporada com um grupo e fomos campeões na Florida enfrentando o River Plate e o Corinthians, não foram quaisquer times também. E ali era um planejamento para todo o ano, para todas as competições que eu falei. E com muitas vendas, muita gente saindo, a maioria do time titular do Rogério saindo, e tendo eu repor com outras peças, acho que isso atrapalhou muito o trabalho dele. E agora com o Dorival já é diferente. Já temos um grupo formado, já não está saindo mais ninguém, não está chegando mais ninguém. Então o treinador tem esse plantel e ele sabe que vai trabalhar e pode fazer o planejamento em cima disso. Acho que isso facilita o trabalho do treinador.

A mudança da postura do time no segundo turno foi inevitável. Qual foi o fator chave que fez com que isso se concretizasse? E como o grupo reagiu vendo o apoio da torcida que lotou o estádio todos os jogos e apoiou do começo ao fim, mesmo as vezes o time perdendo?

A virada do turno foi a virada de chave que a gente viu que se não mudássemos o comportamento e as nossas atitudes, estaríamos correndo sérios riscos de sermos rebaixados. Então nós nos reunimos bastante, conversamos bastante para que todo mundo se cobrasse mais, se entregasse mais para tirar o São Paulo dessa situação. E junto com isso houve uma união de todos. Da torcida, da diretoria... todo mundo entendeu que precisávamos nos reunir para tirar o São Paulo da situação que estava. E funcionou. O torcedor está de parabéns pelo que tem feito. Eles fizeram história. Deve ter sido a primeira vez na história que um clube na situação que se encontrava o São Paulo, brigando para não cair, encontrou tanto apoio da torcida. O torcedor não fez nem pelos jogadores que estão aqui. Eles fizeram mais pelo clube mesmo, por amor ao clube, para não ver o clube disputando a série B. Eles fizeram por paixão ao clube e o resultado acabou refletindo dentro de campo: todo mundo rendendo mais, recebendo mais apoio você joga melhor, mais tranquilo, e os resultados foram melhores.

E após essa mudança, ficou um clima de alívio pelas vitórias que vocês conseguiram ou um clima de decepção por não conseguir algo maior no ano?

O Brasileiro é um campeonato muito difícil, e a gente almejava fazer duas vitórias consecutivas. A gente acabou conseguindo, veio três na sequência e isso mudou o nosso patamar dentro da competição, nos dando esperança de brigarmos por uma Libertadores. Mas o nosso maior objetivo no ano era livrar esse fantasma do rebaixamento, porque foi o que se falou o ano todo. A gente não queria criar uma expectativa maior e acabar se frustrando. Então, nós alcançando esse primeiro objetivo de livrar o time do rebaixamento aí vamos brigar por coisa maior, porque é o que o São Paulo merece.

Um dos milagres do goleiro na temporada (Foto: São Paulo Futebol Clube)

Desde a chegada do Hernanes, muitos torcedores do São Paulo, e até de outras equipes, o colocam como um dos melhores jogares atuando no país hoje. Para vocês do elenco, como o Hernanes afetou o time dentro e fora de campo?

O Hernanes é um cara diferente. Veio de fora, com uma cabeça diferente, tem história no clube, e eu acho que ele, por estar vindo de fora e não ter vivido tanto o que nós vivemos durante o ano, ele acabou trazendo uma esperança boa para a gente. Uma expectativa boa de poder fazer melhor. E todo mundo abraçou a causa de que nós poderíamos fazer melhor, que o São Paulo é grande e não merecia estar onde estava. E em consequência disso, não adianta só falar, ele mostrava isso dentro de campo, jogando futebol, fazendo gols. E acho que uma liderança se faz assim: você fala e mostra como se faz. Foi o que aconteceu. O Hernanes conversava fora de campo, mas dentro de campo ele mostrava como se devia fazer. Acho que isso resume a mudança que ele trouxe para o nosso time.

O São Paulo passa por uma crise política já faz alguns anos. Isso de alguma forma afeta vocês jogadores?

Afeta por conta de planejamento. Como o que aconteceu com o Rogério. Isso afeta bastante. O cara tem um planejamento, um plantel para um ano todo, revezando os jogadores porque sabia que ia contar com todo mundo. E aí do nada começa a vender todo mundo. Então isso foge da alçada de jogador, de comissão técnica. Isso aí é o poder da diretoria, e ninguém pode influenciar nisso. Então isso acaba afetando sim. O que se faz em questão de planejamento e diretoria, por consequência, afeta dentro de campo.

O que dá para tirar de lição dos erros do time desse ano para ano que vem tentar alcançar melhores objetivos?

Isso passa pelo planejamento, né? Você poder dar para a comissão técnica um plantel de jogadores e ele poder contar com isso até o final das competições. E outras coisas foram lições que tiramos dentro da competição: amadurecimento, muita molecada nova que entrou em jogos que eram importantes e havia muita pressão e talvez não era o momento certo. Isso vai trazer um amadurecimento para os meninos. O pessoal mais velho segurando a bronca quando precisou. Então, para que o ano que vem a gente possa encarar de igual para igual qualquer time do Brasil e buscar títulos.

E internamente já se fala de um planejamento para o ano que vem, objetivos já sendo traçados? Ou deve-se esperar o ano acabar para fazer isso?

Acho que tem que esperar acabar e ver como que a gente vai encerar essa competição desse ano para que aí a gente possa começar a planejar. Isso eu digo os jogadores, né? Mas eu creio que comissão e diretoria já devem estar olhando para 2018 para ter um planejamento e que não fique em cima da hora também.

E para finalizar, qual mensagem que você deixa para os torcedores do São Paulo que durante o ano todo apoiou o time?

É, eu cheguei a comentar que eles elevaram o patamar de torcedor, então a cobrança vai aumentar pra cima deles. Porque quando a gente for entrar no Morumbi e tiver 15 mil, 16 mil, a gente vai achar que o estádio está vazio. Eles fizeram algo extraordinário esse ano, estão de parabéns. Eu até sugeri em uma entrevista que a CBF deveria promover um troféu para melhor torcida do campeonato, e o São Paulo seria campeão disparado. Mas a cobrança vai aumentar pra cima deles para que eles continuem enchendo o estádio ano que vem. 

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