Vamos, Vamos Chape!

Que escutem em todo o continente sempre recordaremos o campeão Chapecoense!”

Por Leonardo Pratt

Jogadores da Chape na semifinal, contra o San Lorenzo-ARG (Sky Sports)

Esse é um daqueles dias que ninguém gostaria de lembrar, mas infelizmente todos lembram. Tem certos acontecimentos que marcam nossas vidas, mesmo que não estejamos diretamente envolvidos. O que aconteceu ano passado é um exemplo.
Todos devem se lembrar o que estavam fazendo quando receberam a notícia do acidente do avião que levava o time da Chapecoense à Colômbia para a disputa da final da Copa Sul-Americana. Eu, por exemplo, acordei às 5h45 naquela manhã de terça-feira. Como faço em qualquer outro dia, desliguei o alarme do celular e vi algumas notificações. Entre uma mensagem ou outra, havia a seguinte notícia: “Avião da Chapecoense sofre acidente. Saiba mais!”.

Porém, no dia anterior eu li em uma matéria que a delegação teve problemas para embarcar, e pensei: “Deve ser notícia velha”. Não dei muita atenção. Fiz minhas coisas normalmente, como se nada tivesse acontecido. Fui para a cozinha para o café da manhã, e ao entrar lá percebi minha mãe com um olhar fixo e triste para a televisão. “Por que ainda está passando ‘Hora 1’? Por que minha mãe está assim?”, pensei.

Então, naquele momento, eu percebi que algo não estava certo. A Chapecoense! Não consegui tomar café, não consegui comer nada. Tudo parecia ter parado e eu só ouvia o áudio que saia da televisão, tentando entender uma imagem ou outra que passava. Meus olhos se encheram de lágrimas. “Meu Deus, que eles estejam vivos! Eles estão vivos, vão encontrar eles!”. Era tudo que passava pela minha cabeça.

Não queria sair da frente da televisão. Queria ficar ali para ter notícias boas, saber que eles estavam bem. Mas eu precisava ir para a faculdade, tinha três provas naquele dia. Entre uma lágrima e outra, sai correndo de casa para acompanhar as notícias no rádio do carro. “O goleiro Danilo foi encontrado com vida”. Pouco tempo depois: “A informação de momento é que o corpo de Danilo ainda não foi encontrado”.

Danilo, um dos grande heróis da Chape (Sirli Freitas)

Eu não lembro do trânsito exatamente... lembro que a Avenida Rebouças estava bem congestionada. Só. Mas lembro de pensar nas defesas de Danilo, nos boatos de que ele poderia jogar no São Paulo. Ele era o grande herói da classificação do time para final. Ele tinha que estar vivo. Subitamente me veio a cabeça o nome do técnico da Chape, Caio Junior. “Não encontraram o Caio Junior ainda...”. Comecei a chorar ainda mais no meio do trânsito.

Chegando na faculdade, percebi que não conseguiria focar nas provas. Não lembro de quais matérias eram, mas lembro que fui mal em todas. Voltando para casa, repetiu-se a cena do café da manhã. Estava vidrado na frente da televisão. Nunca pensei que me abalaria tanto por conta de um time que nem era o meu de coração. Mas o amor pelo futebol e a torcida para que aquele time pequeno que começava a dar seus primeiros passos rumo as glórias falaram mais alto.

Quantos jogos eu acompanhei na Rádio CBN com a narração de Deva Pascoavicci? Quantos programas com o Mário Sérgio eu assisti no Fox Sports? Quantas matérias do Victorino Chermont eu já tinha visto e me impressionado com sua qualidade? No meio da tarde, tentei ver um vídeo do jovem Tiago de Souza, o Tiaguinho, de 22 anos. No vídeo, aparecia ele na concentração do time recebendo a notícia de que seria pai. Não consegui. Era demais para mim.

Até que veio o Jornal Nacional. Uma edição toda dedicada a cobertura daquela tragédia. Mais uma vez, lembro de chorar copiosamente durante todo o programa. As notícias de que haviam sobreviventes não traziam a esperança que eu queria. Até que no final do jornal, fizeram uma homenagem às vítimas, colocando vídeos pessoais dos jogadores, alguns que tinham acabado de formar uma família, outros com carreiras promissoras no futebol, um ou outro “figurão” que tinha no elenco. Mostraram o vídeo do Tiaguinho. Ali parecia que eu tinha perdido um ente querido. E realmente, perdi 71 queridos.

A esperança da qual falei antes veio. As homenagens do povo colombiano no dia seguinte foi algo incrível e que faltariam palavras se eu quisesse de alguma forma explicar como foi. A torcida do Atlético Nacional merece todos os tipos de agradecimentos possíveis. Me emociono só de lembrar da música cantada por eles para a Chape: “Que escutem em todo o continente sempre recordaremos o campeão Chapecoense!”

Follmann, Neto e Alan Ruschel no amistoso contra o Barcelona, em agosto (Lance)

Nesse um ano de tragédia, desejo – e aqui falo por todos do Golvernantes – que Deus esteja confortando o coração de todos os familiares que perderam alguém nessa tragédia. As lembranças que temos de todos eles são as melhores possíveis, independente da sua ocupação. Desejo também aos sobreviventes, em especial os brasileiros Neto, Alan Ruschel, Jakson Follmann e Rafael Henzel, que tenham uma nova vida repleta de realizações e que o futuro de vocês seja incrível.

Obrigado por tudo, guerreiros. Em uma época de tanta crise e tanto ódio, vocês encheram o país de orgulho.


“Que o espírito de Condá esteja com vocês”.

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